Mogi de A a Z

A última sessão do Urupema

15 de setembro de 2021

A última vez que o vi foi na Rua Padre João, quase esquina com a Navajas. Caminhava devagar, as mãos postas para trás e vestia um paletó escuro, talvez marrom. Passou ao meu lado sem levantar a cabeça. Ainda lhe disse: “Boa tarde, seo Odilon”. Acho que ele não ouviu, não me lembro de ter-me respondido. Conheci-o pouco, por conta da amizade que Odilon de Mello Freire e meu pai cultuavam desde a juventude. Mas lembro-me bem da figura que poderia ser encontrada a qualquer momento nos escritórios do Cine Urupema, na Praça Firmina Santana.

Odilon de Mello Freire, à esquerda, na gerência do Cine Urupema, ao lado de Walrter Monteiro de Castro e Celso Barreiros

No tempo em que não havia caixa automático, metade da cidade socorria-se de Odilon para seus apertos: trocar um cheque com o homem  que administrava o Cine Urupema, propriedade de sua família, que chegou a ter três cinemas na cidade: o Urupema era o maior deles, mas ainda havia o Odeon, na Praça Oswaldo Cruz e o Cine Parque, na Rua Ricardo Vilela.

O Cine Urupema, inaugurado com pompa e circunstância na segunda metade da década de 1940, era então o maior cinema do País. Coisa para 3.600 espectadores. Mais do que a capacidade do Teatro Municipal de São Paulo. Foi lá minha primeira experiência com cinema. Deveria ter três anos de idade quando meus pais me levaram para uma sessão à qual não assisti. A memória que guarda os traumas impede-me de esquecer o choro sentido que veio sôfrego, tão logo o leão da Metro irrompeu na tela com seu rugido. Minha mãe ficou, meu pai levou-me no colo de volta à nossa casa da Rua Isabel de Bragança, onde a babá Adelina divertia-se ao pé de um rádio de válvulas. Deixou-me ali e voltou para o leão da Metro.

Voltei ao cinema quando já tinha consciência para separar a realidade da fantasia. Principalmente quando surgiram as primeiras namoradas. Era na matinê do Urupema que as mãos se tocavam pela primeira vez; que um beijo roubado tinha o gosto de hortelã do drops Dulcora, aquele embalado um a um. Muitas vezes entrei no cinema pelo escritório. Com o dinheiro contado para a entrada, explorava a amizade paterna com Odilon de Mello Freire para poder garantir o Dulcora na bomboniere espelhada. Cumprimentava Odilon e ele respondia com um aceno de concordância. Não se levantava, apenas apontava com o queixo a porta da gerência que dava acesso à sala de projeção.

Cine Urupema, inaugurado em 1947, um ícone da cidade.

Um dia o cinema fechou. Veio um estacionamento, depois uma sala de show e, por fim, uma igreja evangélica. Odilon não ficou para ver o fim triste do Cine Urupema que, por tantos anos, foi a sua própria vida. Desapareceu. Simplesmente desapareceu. Por mais que o tenham procurado, não conseguiram notícias. Um dia Odilon saiu para andar. Nunca mais voltou.

Publicado originalmente em 2005

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