Carta a um amigo

Calvito Leal

13 de março de 2021

Ele foi o primeiro amigo, há três meses, que perdi para a pandemia de Covid 19. Nunca estivemos na mesma classe de escola, tampouco no mesmo grupo dos que se encontram com frequência. Nada, suficiente para impedir a amizade dos que se sabem fiéis. Nos guardados que preservo com carinho, está esta carta que Calvito Leal me enviou em junho de 2005:

“Prezado Chico Ornellas

Nem bem recuperados das fortes emoções que caracterizaram o congraçamento de tanta gente amiga e conhecida, de que se traduziu o baile em comemoração aos 71 anos do inesquecível Instituto de Educação Dr. Washington Luiz, já nos deparamos com as manifestações, publicadas em sua coluna (29.05.2005), dos colegas contemporâneos Mário Silveira, Augusto Arruda e Toshio Kawamura, que acabaram por nos conduzir, um pouco mais além, no túnel do tempo que representa nossas vidas.

Como você, pelo jeito, tornou-se um fiel depositário, uma espécie de muro onde podemos despejar e descarregar nossos sentimentos, a começar pela alegria de poder rever seu irmão Luiz Guilherme, um companheirão dos tempos de infância e que não víamos há mais de 30 anos, atrevo-me a externar os meus.

Simbolicamente, acho que cada um de nós que teve o privilégio de passar pelo Washington Luiz, ao receber seu diploma de conclusão, foi também contemplado com uma caixinha contendo 3 pedras-guia, cada uma com um significado. Junto a elas, num pequeno papel, havia uma mensagem que dizia que aquelas pedras nos acompanhariam pelo resto da vida e que poderíamos fazer delas o uso, no tempo e na forma que melhor julgássemos ou nos conviesse.

Calvito Leal, engenheiro pela Escola Politécnica, vitimado pelo Covid 19 em dezembro/2020

A primeira pedra tinha por significado a sólida base de conhecimento que recebemos. Das ciências exatas às humanas, da educação física à música. Antes de qualquer coisa, o Washington Luiz caracterizou-se como um templo do saber, o que nos permitiu dar sequência às mais diversas carreiras profissionais e estarmos aí prestando diferentes serviços à sociedade.

Somos muitos professores, dentistas, médicos, juízes, advogados, jornalistas, engenheiros e outras tantas funções, espalhados por todos os lugares, empenhados na realização das múltiplas tarefas exigidas pelo mundo civilizado. E isto devemos atribuir àqueles professores, dirigentes e funcionários que cumpriram com êxito à nobre missão de transmitir o melhor de si, em busca do desenvolvimento de todos. Para nossa alegria, no Baile pudemos ver muitos deles ainda entre nós e dos que já se foram, permanecem suas boas lembranças, eternizadas em nossas mentes.

Outra pedra representava a vida estudantil paralela que nos foi oferecida. As muitas atividades esportivas, as paixões, os confrontos com o estabelecimento de ensino rival, a participação geral nos preparativos, a empolgação da torcida, dos pais, dos simpatizantes de cada lado, as desavenças e repercussões dos resultados. Que palavras teríamos mais para descrever todas essas situações vividas. Em verdade nós estávamos efetivamente praticando aquela máxima do esporte que estabelece “Mens sana in corpore sano” – Mente sã em corpo sadio.

Nas atividades sociais e de lazer, o que desfrutamos? As festas, os bailes, os bailinhos, os romances, as alegrias e decepções juvenis, enfim tudo o que aquela juventude podia já descortinar como algumas das imagens de seu mundo futuro.

O que dizer, ainda, daquilo que se constituiu, certamente, no emblema maior da vida estudantil, agregada à existência do Washington Luiz, de toda uma geração e que consistiu na formação da maravilhosa fanfarra, cujo corpo foi moldado através da cooperação de tanta gente, dos alunos e alunas, dos professores, dos funcionários e da direção da Escola.

O fruto disso tudo foi um conjunto memorável, que passou a ser um ícone de referência, um verdadeiro cartão postal, não só da escola, como da própria cidade de Mogi das Cruzes. Os maiores eventos cívicos de nossa região, da Capital e de outros lugares mais distantes, sempre contavam com a participação de nossa fanfarra, que emprestava um brilho especial à ocasião, enchendo-nos a todos de orgulho. Tantas apresentações, tantas viagens em conjunto, tantos bons momentos, tantas histórias engraçadas, tantos atos de companheirismo, que só nos cabe agradecer por termos podido vivenciar estes momentos.

Por derradeiro, a terceira e última pedra-guia parecia ter um aspecto diferente. Demonstrava ser muito dura, resistente, imune a tudo e impossível até de ser afetada pelas grandes forças da natureza. Felizmente, esta vem se mantendo extremamente viva ao longo dos anos, sobrepujando a ação devoradora e implacável do tempo. Tem se revelado mesmo indestrutível e, pelo visto deverá perdurar por muitos e muitos anos ainda, superando potenciais hecatombes ou crises atômicas.

 Seu significado era a amizade, a afeição e o bem-querer mútuo, entre todos aqueles que compartilharam dessa época e de seus acontecimentos e que representam os grandes personagens da nossa história pessoal.

Com aquele super abraço

Calvito José Ramalho Leal”

Junho de 2005: ex-alunos do Washington Luiz reúnem-se em confraternização

(Março de 2021)

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