Sem coluna

Desde a prisão no Rio

1 de novembro de 2021

No dia 2 de dezembro de 1932, preso no Rio de Janeiro

 como um dos líderes da derrotada

Revolução Constitucionalista de 9 de Julho,

o médico Deodato Wertheimer escreveu de próprio punho,

ao amigo mogiano Florêncio Paiva, a carta que segue,

 hoje preservada por Maria Carmen, neta de Florêncio.

“Meu caro e querido amigo Florêncio

Em primeiro lugar o bem-estar dos seus e principalmente de D. Custódia, a quem pelo abraçar.

Aqui ainda estou na Casa de Correição, depois de tirar o passaporte, com fotografia, impressão digital, qualificação e outros temperos mais.

À última hora, porém, não sei por que motivo, e nem procurei saber, o meu nome foi riscado de candidato ao exílio.

Mas, …talvez ainda torne para a luta e, então… rume para simpática e hospitaleira terra de Portugal.

Agradeço-lhe imensamente a carta que você mandou expressa e a que tenho em meu poder. Irei procurar o seu mano para me orientar ao menos… como ajuda de qualquer coisa; pedir-lhe por exemplo. Isso, não?

Tenho saudades de vocês, dos bons amigos, das sinceras amizades que mercê de Deus não faltam.

Deus sabe o que faz; e ninguém deve se desesperar e muito menos sorrir das desventuras alheias, mormente quando se trata de um chefe de família que por ser honesto e serviçal, sofre as consequências de ter sido bom em demasia.

Ainda não sei ter ódio; não aprendi a ter ódio, sou um verdadeiro burro neste sentido. Confio muito em Deus, Ele sabe o que faz e nós não sabemos o que dizemos.

Preso na Casa de Correição do Rio de Janeiro, como um dos líderes da Revolução de 1932, Deodato Wertheimer escreve ao amigo Florêncio Paiva.

Afinal, o que me tem faltado? Apenas a liberdade (é tudo) e o convívio de vocês, tão bons e generosos. Já devo estar contente; sinto-me forte e muito forte nestes pedacinhos divertidos. Só a família, as crianças me fazem sofrer um pouco. Mas Deus sabe o que faz, repito.

Como vão o Zoé, Torres, Felix etc. etc., pois se for citar todos necessitaria requisitar algumas boninas de papel.

Agradeço também ao Agostinho e meus respeitos à sua senhora. Como sua também, Aquino? Ele que está pagando o telefone por enquanto, isso se for desterrado, desligue… assim também a luz.

Creio bem que serei exilado ou demorado aqui – não faz mal.

Sabe de uma novidade? Colocaram-me com outros aqui na Capela da Correição; mas a mim e mais dois justamente na sacristia, ao lado de Cristo. O pior é que me colocaram à esquerda, isto é, no lugar do “mais ladrão”!

Bem, não lhe quero tomar mais tempo; vou dormir, já são horas e meu último pensamento de agora é justamente uma saudade dos sinceros amigos.

Abraça-os a todos e diga-lhes que Deodato, mesmo na desdita passageira, quebra mas não verga e não tem ódio de ninguém.

Adeus. Um grande abraço do

Deodato

Nota: se quiser escrever, ou algum amigo o queira, o que não é mal:

29 – Rua Candido Gafrée, 29

Urca – Rio de Janeiro

Aos cuidados do dr. Alexandre Penna.”

“Deodato, meu pai”

MARIA ANTONIETTA WERTHEIMER GARCEZ (*)

Filho de Gustavo Wertheimer e Augusta Petit Wertheimer, Deodato Petit Wertheimer nasceu em São Paulo (Capital) aos 2 de julho de 1889. Em 1897, com 8 anos de idade, ficou órfão de pai. Em 1898, mudou-se com sua mãe para o Rio de Janeiro.

Em 1900, foi internado no Colégio Anchieta, em Friburgo (Estado do Rio de Janeiro), dirigido pelos dedicados padres jesuítas e afamado pelo elevado padrão de ensino. Aí se formou em 1906, tendo sua turma, como paraninfo, o conselheiro Ruy Barbosa, uma das maiores glórias da intectualidade brasileira.

Em 1907, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro onde, em 1912, recebeu o grau de doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas. Decidiu, então, retornar a São Paulo, sua terra natal onde, sob a orientação de médicos renomados, iniciou a prática médica em conceituados hospitais, tais como o Instituto Paulista e a Maternidade São Paulo. Em 1913, a convite de amigos, transferiu-se para Mogi das Cruzes, interior paulista, onde se fixou.

Em 1914, casou-se com dona Leonor de Souza Franco, filha do então chefe político local, o coronel Francisco de Souza Franco. Dessa união nasceram 2 filhos: Maria Aparecida e Luiz Gustavo.

Em 1919, faleceu sua esposa.

Em 1920, contraiu novas núpcias, desta vez com a professora dona Maria Amália Vasconcellos, de família bragantina. Desse consórcio nasceram 5 filhos: Maria Antonietta, Luiz Guilherme (falecido aos 5 meses de idade), Luiz Gabriel e Luiz Guilherme (o segundo filho com esse nome).

DEODATO WERTHEIMER – O médico que teve uma meteórica carreira profissional e política em Mogi das Cruzes.

Em Mogi das Cruzes, durante 22 anos, Deodato Petit Wertheimer (ou Deodato Wertheimer, como era mais conhecidos) exerceu a medicina com o maior desvelo e humanitarismo, particularmente durante a devastadora epidemia da “Gripe Espanhola” que assolou o País em 1918. Durante 14 anos prestou serviços À Santa Casa local como cirurgião e como diretor clínico. Foi fundador do Posto de Emergência Santa Terezinha. Foi um dos primeiros médicos do Asilo Colônia de Santo Ângelo (leprosário) e integrante da Comissão de Higiene Pública.

À época, era ele um dos poucos médicos-cirurgiões do município, pelo que contava com grande clientela, sem falar da população menos favorecida, que ele atendia graciosamente e com muita simpatia, pelo que era por ela chamado o “pai dos pobres”.

Como político, foi eleito vereador, prefeito, presidente da Câmara e, depois, deputado estadual em várias legislaturas, até 1930. Apresentou projetos de lei para a construção de estradas de rodagem unindo as cidades de São Sebastião, Caraguatatuba, Ubatuba, com ramais para São Luiz do Paraitinga, Paraibuna e Salesópolis; lutou por melhoramentos da Estrada de Ferro Central do Brasil e ainda por construções hospitalares, obras de saneamento etc.

Nos poucos momentos de intervalo entre suas atividades, redigia artigos para os jornais “Correio Paulistano” e “Jornal do Comércio”, defendendo ideias e sugerindo soluções. Entre essas, constam a defesa dos leprosos (desde 1918) e os problemas de água e esgoto de Mogi das Cruzes.

Pela sua atuação incansável em prol de toda a região, conquistou a amizade e o reconhecimento do povo, expressos, no decorrer dos anos, através de várias homenagens: foi agraciado com uma Poliantéia; seu nome foi dado à principal rua comercial de Mogi das Cruzes, bem como a escolas e ruas do Município.

Depois de vida tão produtiva e de amor à terra que o acolheu, sobrevieram convulsões políticas, envolvendo-o em sua voragem.

Assim, em 1930, mediando golpe de Estado, Getúlio Vargas, que havia perdido a eleição para a sucessão presidencial, tomou o poder pelas armas, instalando no Brasil um regime autoritário que culminou com o chamado “Estado Novo”.

Seus correligionários em todo o País passaram, então, inclusive mediante violência, a perseguir os políticos vencidos, dentre os quais Deodato Wertheimer, que era o chefe político do Partido Republicano na região.

Nessa época (1930), morava ele, com a família, em prédio alugado, num correr de casas geminadas, enquanto aguardava ficar pronta sua casa, numa chacrinha próxima da cidade, sua única propriedade.

Os getulistas saquearam a residência e queimaram os móveis no meio da rua, poupando apenas o prédio por não pertencer à família…

Doutor Deodato foi, então, preso e levado para o prédio da Imigração, em São Paulo (transformado em uma espécie de Quartel General da Ditadura), onde já estavam e iam chegando outros presos políticos.

Uma vez solto, voltou para Mogi onde, com a esposa e filhos, se instalou na casa ainda não terminada da chacrinha.

Retomou a clínica e as atividades políticas pró-democracia, o que lhe valeu nova prisão pela ditadura, agora em 1932, após a Revolução Constitucionalista. Como outros políticos, foi enviado para o Rio de Janeiro para ser exilado para Portugal, o que, felizmente, acabou não acontecendo com ele nem com alguns outros.

Passado algum tempo, voltando do Rio a Mogi, mas doente e muito enfraquecido, já não pode continuar a clinicar no ritmo anterior e, sem outra fonte de renda, precisou hipotecar a chacrinha que, pelas circunstâncias apontadas, acabou perdendo.

Em 1935, agravando-se seu estado de saúde, foi ele internado no hospital Santa Catarina, em São Paulo, indo em seguida para a casa de um tio, também em São Paulo, onde veio a falecer em 15 de agosto desse mesmo ano, com apenas 46 anos de idade.

Conforme desejo seu, há muito manifestado, foi sepultado em Mogi das Cruzes.

Seu enterro foi acompanhado por mais de 5 mil pessoas, segundo noticiado em jornais da época. Entre as coroas de flores que cercavam seu esquife, uma, de modo especial, emocionado: “Ao doutor Deodato, a gratidão dos pobres de Mogi”.

Morreu pobre ele também, deixando, entretanto, um comovente exemplo de idealismo, generosidade e probidade.

Que Deus o tenha em sua Glória!

(*) Maria Antonietta Wertheimer Garcez

é filha do doutor Deodato Wertheimer.

Publicado originalmente em 2010

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