Mogi de A a Z

Lembrando uma vergonha

26 de agosto de 2021

Nem só de vitórias vive um povo, nem só de orgulho vive uma cidade. Pois hoje vamos recordar uma vergonha. Aquele que é, em definitivo, o “Dia da Vergonha” desta cidade.

Foi em 24 de outubro de 1930.

O dr. Deodato Wertheimer havia chegado a Mogi das Cruzes havia pouco mais de 20 anos. Viera para atender Josefina (Finóca, no apelido de família), filha do então prefeito Coronel Souza Franco. Deodato era um jovem e promissor médico carioca, assistente de conceituado clínico paulistano que se encontrava em viagem à Europa e, por isso, não pôde atender ao chamado do cliente antigo. A consulta celebrou uma aproximação familiar que nunca mais se desfez: alguns meses após, Deodato se casaria com Leonor, a filha mais nova de Souza Franco e marcaria uma presença histórica na Cidade. Com Leonor, que morreria jovem (em 1919, vítima da Gripe Espanhola), teve dois filhos: Luís Gustavo Wertheimer, médico como o pai, catedrático de Ortopedia da Faculdade de Medicina da USP e Maria Aparecida Wertheimer Abbondanza. Com os dois, tive o privilégio de uma longa convivência.

Em Mogi, logo Deodato iniciaria uma fulminante carreira política. O município tinha, ao seu tempo, 40 mil habitantes (15 mil na área urbana) e apenas 140 linhas telefônicas. Foi deputado estadual e deputado federal. Foi prefeito. Montou e instalou a primeira maternidade de Mogi. Estruturou os serviços de atendimento à epidemia da Gripe Espanhola que assolou o Brasil no início do século passado. Como partidário do PRP – Partido Republicano Paulista, celebrou uma sólida amizade com Washington Luís Pereira de Souza. Trouxe-o, como presidente da República, diversas vezes à Cidade. E foi esta amizade que lhe custou a punição mais dura que poderia receber.

No dia 24 de outubro de 1930, Getúlio Vargas colocou abaixo o governo de Washington Luís. Em Mogi, o poder derrocado era representado por Deodato Wertheimer. Tão logo chegou à Cidade a notícia da revolução vitoriosa, dezenas de getulistas tomaram de assalto a residência de Deodato, queimando móveis e depredando-a por completo. O interventor que chegou, Coronel Eduardo Lejeune, determinou a remoção das placas de ruas que, já a esse tempo, homenageavam pessoas como Deodato Wertheimer, Washington Luís, Carlos Alberto Lopes e Joaquim Melo Freire.

Antes de se entregar e ficar preso pelos poderosos do momento, Deodato refugiou-se em propriedade de amigos no distrito de Sabaúna. De lá, escreveu a seguinte carta (mantida a grafia original) a Nenê, sua cunhada:

 “Nenê. Saudações.

É esta um appello que lhe venho fazer. Nunca em Mogy se viram cousas como as que ora se passam. É o ódio e a vingança dos adversarios e inimigos, que se desabafa em vingança as mais crueis e ferozes. Peço-lhe que zele pela sorte das famílias dos nossos amigos, Chico Lopes, Carlos Alberto e tantos outros, que tanto trabalharam pelo bem de Mogy e que si descontentaram a muitos, foi porque politicamente não é possivel satisfazer a todos, como você bem sabe.

Você e D. Ermelinda (N.do A.: Ermelinda Arouche, esposa de Alvaro Arouche de Toledo, cunhada de Nenê) poderão intervir favoravelmente e com decisão no caso, indo ambas a S. Paulo, entendendo-se com D. Mathilde (N.do A.: esposa do embaixador Macedo Soares) e com a Sra. do Marrey (N.do A.: advogado de grande conceito em São Paulo.), meu particular e íntegro amigo.

Os drs. Macedo Soares e Marrey não podem estar de accôrdo com o que se passa em Mogy – ambos em entrevistas pedem calma e respeito aos seus adversarios, o que infelizmente não se verifica em Mogy. Para mim pessoalmente, nada peço a não ser que se evitem, em geral, as depredações, as ameaças de incendios, e assassinios, como me consta, nesta terra que tanto estimo apesar de ter recebido ahi tantas ingratidões.

Querem a minha prisão? É justa, no momento, como politico em evidencia que fui e amigo pessoal e que contiuo a ser do dr. Washington Luis. Neste caso, porem, quero entregar-me à pessoa consciente e moralmente integra e não a sicarios que não titubearam e não impediram a invasão de minha casa.

Por estes, e aos quaes você bem conhece, juro que só à trahição, serei preso, e isto mesmo com muito sacrificio de vidas.

No entanto estou prompto a entregar-me em S. Paulo de acordo com a conferencia que você e D. Ermelinda tiverem em S. Paulo, com os drs. Macedo Soares e Marrey.

O nosso Mogy, bondoso e são, tenho certeza, apoiará o governo constituido – os factos estão consumados – é do nosso dever como brasileiros, embora sopitando amizades particulares.

Quanto às manifestações de baixos odios, e perversidade contra filhos inocentes, isto não trará a pacificação da familia mogyana.

Diga a Alice (N. do A.: Alice de Souza Franco, também cunhada de Deodato Wertheimer) e a D. Chiquinha (N. do A.: Chiquinha de Souza Franco, sogra de Deodato e viúva do coronel Francisco de Souza Franco), um muito obrigado pelo auxilio em dinheiro que expontaneamente nos mandaram pelo Chiquito. Viemos sem nada, até sem roupa para as creanças.

Deodato, com a 1ª esposa Leonor, filhos e sobrinhos na sua residência da Rua José Bonifácio

No dia de finados si ainda não podermos ahi estar, peço providenciar uma flores minhas no tumulo da Nonô (N. do A.: Leonor Franco Wertheimer, primeira esposa de Deodato); do seu Pae e avisar ao Luis do consultorio, para os tumulos do José Benedicto e do meu ultimo filho morto. Adeus, e que Deus faça justiça.

Deodato, o cunhado e amigo”

Preso, Deodato recusou-se sempre a delatar aliados e detratores. Algumas semanas depois voltou a Mogi. Mas nunca mais foi o mesmo. Perdera a sua razão de viver. Já não tinha mais o ânimo que o levou a realizar muitas obras públicas e outras tantas particulares. Construiu para residência da família, por exemplo, os solares da Rua José Bonifácio (onde a Prefeitura funcionou muitos anos e hoje há apenas um estacionamento) e da Avenida Pinheiro Franco, também demolido há anos e onde está hoje a agência do Banco Real.

Deodato Wertheimer morreu dia 15 de agosto de 1935. Apenas cinco anos após a grande traição. Tinha 46 anos de idade. No total, viveu em Mogi pouco mais de 20 anos. Não precisou de mais para consolidar sua passagem por nossa História.

Este nosso “Dia da Vergonha” não pode ser esquecido. Ao menos para que não se repita.

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