Gente de Mogi

O assalto ao trem em Sabaúna

29 de março de 2021
SABAÚNA – A velha estação de Sabaúna, datada de 1893, é o que resta, de preservado, da história ferroviária de Mogi das Cruzes.

É um dos mais antigos sítios de Mogi, distrito desde 1920 e, por conta das dificuldades de acesso e das limitações da legislação ambiental, segue hoje no mesmo ritmo dos tempos em que frades carmelitas cuidavam das terras, distantes 20 quilômetros do centro urbano. A bem da verdade, até que se pensou num boom lá pelos idos de 1876, quando os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil chegaram a Sabaúna. O sonho foi longo, durou exatos 110 anos: em 1986 passou a última composição entre Mogi das Cruzes e São José dos Campos. Nunca mais, exceto um trem turístico de circulação irregular.

Fama mesmo Sabaúna teve em 1954 anos: no dia 9 de junho, uma quarta-feira, quando três homens tentaram assaltar o Trem Pagador na sua escala por ali.

A ferrovia estava, para as cidades, como a corrente sanguínea para os vertebrados: por ela circulava a vida e ela determinava o ritmo dessa vida. As correspondências iam e vinham nos vagões Correio; os gêneros alimentícios também, nos vagões de carga que tudo transportavam. Havia vagão para animais, vagão restaurante, dormitório; também vagão do chefe. E o vagão pagador.

As composições iam sendo montadas conforme a necessidade. A princípio, o vagão pagador era utilizado apenas pela ferrovia, para pagar o salário de seus funcionários ao longo do percurso. Sempre em dinheiro vivo. Com o tempo, empresas localizadas no percurso da linha férrea passaram a usar seus serviços.

O pagador poderia ser o segundo ou o último vagão. Seria o segundo, imediatamente após o do chefe do trem, se não houvesse necessidade de desengatá-lo no percurso. Neste caso, seria então o último e ficaria por um tempo maior em grandes estações, cumprindo seu papel de banco e esperando a próxima composição.

Sabaúna é hoje um gracioso e pacato vilarejo? Imagine então em 1954, quando lamentava – já havia dois anos – a construção do ramal variante de Parateí. Ele passa do outro lado da Serra do Itapeti, em linha paralela à via Dutra (o primeiro viaduto da Mogi-Dutra, após o trevo da Ayrton Senna, é sobre ele). A linha variante foi aberta para encurtar o percurso São Paulo-Rio e evitar que os trens de carga peregrinassem por centros urbanos. Com o tempo, lançou ao ostracismo ferroviário muitas das paradas original da primeira linha.

Pois no dia 9 de junho de 1954, logo após a parada que o Trem Pagador fez em Sabaúna, três homens invadiram, armados, o vagão pagador. Trocaram tiros com os guardas. Um dos assaltantes morreu, outros dois fugiram, deixando morto também o ferroviário Manoel de Oliveira Andrade. Tinha 45 anos, um tiro na cabeça, outro no coração. Na mão fechada, segurava a chave do cofre. Seu nome foi dado, como homenagem, a uma estação da linha Parateí – “Pagador Andrade” – localizada em Jacareí, a 11 quilômetros da via Dutra.

O assaltante morto era José Lopes dos Santos, tinha 24 anos e trabalhava no Bar Triângulo, em Mogi. Os outros dois foram presos poucos dias depois, por um detalhe insólito: no vagão pagador deixaram cair um boné, com a marca Renner. A polícia foi à loja da marca em Mogi, o gerente lembrou-se da venda e entregou cópia da nota fiscal com os nomes dos compradores.

No caso de Sabaúna, o vagão pagador era o último do trem, pois pernoitaria em Jacareí. Ele levava 13 milhões de cruzeiros (equivalentes a cerca de R$ 3,5 milhões em janeiro de 2021). Nada foi roubado.

(Janeiro de 2014)

DINAMITE Em meados da década seguinte (anos ’60) outro assalto em Sabaúna: desta vez, integrantes da ALN, grupo armado de opositores do regime militar, invadiram a Pedreira Rochester e levaram uma carga de dinamite. A ação foi comandada pelo ex-capitão do Exército, Carlos Lamarca.

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