Gente de Mogi

O trágico fim do senador e sua filha

22 de abril de 2021

Foi no dia 20 de janeiro de 1906. Embora impossível – e inconveniente – comparar tragédias familiares, aquela, decididamente, tem lugar de destaque entre as mais tristes dentre as havidas em São Paulo. Pela peculiaridade dos fatos e pelo destaque de seus protagonistas. Francisco de Assis Peixoto Gomide estava próximo dos 57 anos. Advogado, professor e político, foi governador (dizia-se presidente à época) de São Paulo e presidente do Senado estadual (equivalente hoje à Assembleia Legislativa). Naquele dia, vitimado por o que hoje, provavelmente, seria diagnosticado como uma depressão, matou a filha Sophia (22 anos) e se suicidou em seguida.

São Paulo parou, surpresa, e entre as muitas coroas de flores enviadas ao palacete da família na Rua Benjamin Constant havia pelo menos duas de mogianos, com as faixa: “Ao dr. Peixoto Gomide, seus compadres José Arouche e filhos” e “A Sophia, saudade da sua prima Henriqueta Arouche”.

SENADOR – Um dos políticos mais influentes do final do século 19, Peixoto Gomide matou a filha Sophia e se suicidou em 1906.

O texto a seguir, publicado na edição de 21 de janeiro de 1906 de O Estado de S. Paulo, dá bem a dimensão da tragédia (a ortografia foi atualizada):

“Ontem, alguns minutos apenas depois das duas horas da tarde, estavam uns dos nossos companheiros de trabalho na nossa sala de redação, quando entrou um conhecido corretor da nossa praça e lhes disse, abrupto, pálido, a voz trêmula, profundamente comovido:

* Pois, vocês ainda não sabem?!…

* Não, não sabemos.

* O dr. Peixoto Gomide suicidou-se!

* O dr. Peixoto Gomide? O presidente do Senado?

* Sim, esse mesmo.

* Não é possível!

* Como não é possível? O escritório do Mário fechou-se agora mesmo, e eu vi o pobre moço sair, desvairado, doido, pela Rua 15 de Novembro acima. Foi urgentissimamente chamado de sua casa. (Mário é o sr. Mário Gomide, filho do dr. Peixoto Gomide e estabelecido à Travessa do Comércio, com escritório de corretor).

Mal acabaram os nossos companheiros de ouvir a terrível notícia, chega ao nosso escritório outro corretor:

* É verdade?… perguntaram todos a uma voz.

A pessoa interpelada compreende logo do que se trata e, sem demora, responde:

* Desgraçadamente, é verdade. Eu estava no escritório do Mário quando, pelo telefone, creio que da polícia, lhe contaram tudo. O dr. Peixoto Gomide matou a filha, com um tiro de revólver e, depois, suicidou-se com a mesma arma. Ele morreu instantaneamente e a filha, creio que ainda vive, mas em estado gravíssimo.

* A filha?!

* Sim, a filha.

* Não se trata, então, de um simples suicídio?!

* Mas, por quê?

* Não sei. É uma fatalidade, uma tremenda fatalidade, creio que se trata de uma história de casamento. O coitado do Mário lá foi pela Rua 15 de Novembro acima inteiramente fora de controle.

O dia estava lindo, o céu claro, o sol abrasador. Pelo lado da sombra, subia e descia a costumada onda de gente alegre e desvairada. Ninguém sabia coisa alguma. Pouco depois, porém, transformou-se completamente o aspecto deste trecho da mais movimentada das nossas ruas. Viam-se traços de dolorosa surpresa em quase todas as fisionomias. Aqui e ali se formavam grupos. Pessoas conhecidas iam e vinham apressadamente por entre a multidão. Faziam-se perguntas e comentários, pediam-se pormenores. Como foi?… Porque seria?… Estão ambos mortos?… Vive ainda?… Pode salvar-se?

É que, da Travessa do Comércio, já se tinha espalhado por todo o Centro da cidade a horrível nova confirmada de que o dr. Francisco de Assis Peixoto Gomide, presidente do Senado, se suicidara e matara uma de suas filhas. Era real tudo quanto nos vieram dizer ao escritório.

Quando o nosso companheiro chegou à Rua Benjamim Constant número 25-A, e subia as escadas da residência do dr. Peixoto Gomide, este ainda estertorava, estendido num grande sofá de palhinha da sala de visitas. Trajava paletó e calças de fazenda escura. Saía-lhe massa encefálica pelo alto do crânio, do lado esquerdo. Tinha os olhos muito abertos e vermelhos e um, o esquerdo, fora da órbita. No chão, de onde o tinham erguido, havia uma grande poça de sangue, ainda quente.

O vigário Francisco de Paula Rodrigues e o monsenhor Benedito de Souza estavam lá à cabeceira do agonizante e trançavam por sobre a sua cabeça despedaçada o sinal da cruz, o vigário Paula Rodrigues chegou-lhe os lábios ao ouvido e murmurou:

* Sou eu, dr. Gomide, o seu amigo padre Chico. Lembre-se da Virgem Nossa Senhora e peça-lhe perdão dos seus pecados!

Os médicos drs. Marcondes Machado, da polícia, Ayres Netto, Arthur Mendonça e Cândido Espinheira cruzaram os braços, desalentados. Nada havia que fazer, a morte era inevitável. E, efetivamente, minutos após, o dr. Peixoto Gomide expirou, e o seu rosto se revestiu da mesma serenidade que transparecia no de sua filha, posta na cama de um quarto ao lado, braços sobre o peito, trajando simples trajes caseiros, com um ferimento no alto da fronte, bem na raiz dos cabelos loiros já lavados e penteados por mão piedosa.

Não tentamos descrever o desespero dos membros da família, que sobrevieram à catástrofe: Dona Ambrosina Pinto Nunes Gomide, a viúva e mãe desconsolável; Mário, a quem já nos referimos; Alceo, que cursa o quarto ano de Medicina na Faculdade da Bahia e Gnesa, outra gentil menina de cerca de 20 anos. Sophia, a morta, tinha 22.

Mário, Alceu e Gnesa choravam desesperadamente. Dona Ambrosina, de olhos secos, mas desgrenhada e com o semblante desfeito, dizia frases sem nexo.

Nas janelas das casas vizinhas, principalmente na estação telefônica, de onde saíram os primeiros socorros àquela desgraça, aglomeravam-se muitos curiosos. Amigos e conhecidos subiam as escadas. Ia-se formando uma multidão à porta da rua.

Local da tragédia: Rua Benjamin Constant, próximo à Catedral (localizada onde hoje se encontra a Catedral da Sé).

O fato deu-se da seguinte maneira:

O dr. Peixoto Gomide, que passara quase toda a noite sem dormir, levantou-se melancólico, abatido. Poucas palavras disse durante a manhã a sua esposa e a suas filhas. Ao almoço, servido às 10 horas, porque o dr. Peixoto Gomide, paulista dos antigos, conservava religiosamente velhos hábitos da nossa cidade, também poucas palavras proferiram. Depois do almoço, Mário vem para o seu trabalho de corretor, Alceo retirou-se para o seu quarto no pavimento inferior do prédio, d. Ambrosina e Gnesa entregaram-se a lides domésticas e Sophia sentou-se numa cadeira da sala de jantar, a fazer crochê. O dr. Peixoto Gomide conserva-se por algum tempo no topo da mesa mudo, pensativo, atirando bolinhas de miolo de pão para o teto. Depois, entrega-se e, por três ou quatro horas, andou, sem descanso, da sala de jantar para a de visitas; e desta para aquela. Todas as vezes que chegava a sala de jantar, pousava os olhos demoradamente em sua filha, que, também muda e pensativa, ia tecendo a linha em sua agulha. De repente, o dr. Peixoto Gomide aproximou-se da infeliz e, tirando da algibeira um revólver, um grande revólver Smith & Wesson, apontou-lhe para a fronte. Sophia teve apenas tempo de perguntar:

* Que é isso meu pai?

* Não é nada.

E a bala partiu certeira, fulminante. Sophia não soltou um grito, não fez o menor movimento. Rolou morta da cadeira para o soalho, que logo se encheu de sangue.

Acudiram todos imediatamente: D. Ambrosina, Gnesa e uma criada ao estrondo do tiro, e Alceo, que dormia e acordou ao baque do corpo de sua irmã nas taboas.

O dr. Peixoto Gomide, sem nada dizer, estendia o braço armado, como que a procura de uma nova vítima. Chegou a dirigir a arma para Gnesa, mas a criada correu para ele e evitou que a sua sinistra intenção se realizasse.

Contrariado nos seus intuitos, mas sem dar o mínimo sinal de irritação, calmo, vagaroso, o dr. Peixoto Gomide foi para a sala de visitas e, logo que lá chegou, pos o cano do revólver no ouvido esquerdo e puxou pelo gatilho. A bala não partiu. O tiro falhou. Mas, novo esforço dá mais uma volta ao cilindro e, desta vez, a bala parte e o dr. Peixoto Gomide está mortalmente ferido.

Resta que os nossos leitores saibam os antecedentes deste tristíssimo fato, tão triste que não nos lembramos de outro que tanta mágoa nos causasse ao cumprirmos o dever de noticiá-lo.

Sophia era noiva, tinha, havia alguns meses, contratado o seu casamento com o dr. Manuel Baptista Cepellos, promotor publico de Itapetininga que, por sinal, é um poeta de grande talento. Dele, ainda não há muito, nos dizia Olavo Bilac que poucos poetas conhecia no Brasil de tanto merecimento e tão brilhante futuro. Ia realizar-se o enlace no próximo sábado. O enxoval estava pronto. Tinham-se feito obras no prédio para a festa, e o dr. Peixoto Gomide regressara anteontem de Itapetininga, onde fora alugar a casa na qual deviam residir sua filha e seu futuro genro.

Disseram ontem que o dr. Peixoto Gomide concedera contrariadíssimo a mão de sua filha ao dr. Cepellos. Absolutamente não é exato. Pessoa digna de todo o crédito nos afirmou que ele comemorara o contrato, orgulhoso até da escolha de Sophia, referindo, desvanecido, ao modestíssimo passado do noivo: ex-oficial da Força Pública que, só ao seu próprio esforço, devia a posição a que chegou, depois de um belo curso na nossa Academia.

A dois amigos, com quem por esse tempo conversara, disse ele de todo em rodo não se podia conformar com a ideia de que outro homem, um estranho, ia ser o preferido do coração de sua filha querida.

Dali até o fatal dia de ontem foi um martírio, uma prolongada tortura, que não temos tempo, nem eloquência, para traduzir nessas pálidas palavras. Não nos é possível narrar tudo o que sabemos de fonte segura.

Ia frequentemente ao Juquery, em visita ao dr. Franco da Rocha, de quem era amigo intimo. Desabafava com ele, referia-lhe miudamente o seu imenso infortúnio, aludia com insistência ao que tinham dito do dr. Cepellos, profetizava um futuro todo de sombras e amarguras a filha estremecida. O dr. Franco da Rocha, que conhece o dr. Cepellos, contestava-o. Ele voltava consolado e, na aparência ao menos, tranquilo. No dia seguinte, porém, o espinho que cruelmente lhe tinham cravado no espírito já enfraquecido, recomeçava a doer e lá voltava ele para o Juquery, á procura do amigo fiel.

E, na incoerência da loucura que o dominava, fraco para impedir o casamento com a sua autoridade de chefe de família, mas pavorosamente forte para matar uma filha e matar-se, empunhou um revolver e fez-se protagonista de uma das mais horrorosas cenas que, por intermédio dos jornais, tem chegado ao conhecimento da população desta Capital.

PROMOTOR – Manuel Baptista Cepellos tinha 34 anos quando sua noiva Sophia foi morta pelo pai. Ele próprio morreria nove anos depois, vivendo miseravelmente no Rio de Janeiro.

Tendo a família acedido, o sr. presidente do Estado tomou as necessárias providencias para que no enterro, que se realizará hoje, ás 7 horas da manhã, sejam prestadas ao morto as honras que lhe são devidas, mandando ainda depositar sobre o féretro uma grande coroa de flores.

Ás 9 horas e meia da noite estava concluído o serviço da armação da camara-ardente, no gabinete de trabalhos do finado.

Foram ali colocadas, até ás 10 horas e meia da noite, coroas de saudades com os seguintes dizeres:

* O presidente do Estado de S. Paulo ao dr. Peixoto Gomide;

* O secretario do Interior e justiça ao dr. Peixoto Gomide;

* O chefe da policia do Estado ao dr. Peixoto Gomide;

* A Camará Municipal de S. Paulo ao dr. Peixoto Gomide;

* Bernadino de Campos e família ao dr. Peixoto Gomide;

* Ao dr. Peixoto Gomide, os funcionários da Caixa Econômica;

* Ao dr. Peixoto Gomide, seus compadres José Arouche e filhos;

* Ao dr. Peixoto Gomide,, Luiz Leite Junior;

* Ao dr. Peixoto Gomide, Campos Maia e família.

Ás 10 horas da noite foi conduzido para a sala de visitas, também transformado em camara-ardente, num caixão todo branco com galões prateados, o cadáver de d. Sophia, vestida de noiva. A guarnição da sala de visitas era toda de damasco branco, com galões e franjas prateadas, e junto à parede em frente ás janelas que dão para a rua, foi armado um altar, em cuja banqueta se destacava um crucifixo de prata, entre seis candelabros, também de prata.

Até as 10 horas e meia da noite apenas duas coroas se achavam junto a eça, com os seguintes dizeres:

* A Sophia Peixoto Gomide, o dr. Bernardino de Campos e família;

* A Sophia, saudade da sua prima Henriqueta Arouche;

Muitas senhoras e moças ficaram na sala, velando o corpo.

(Abril de 2014)

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