Gente de Mogi

Se essa rua fosse minha

15 de outubro de 2021

Houvesse uma maquete da área central de Mogi das Cruzes e ela poderia brincar sobre as ruas como se fossem suas. Entraria pela do tio Deodato (Wertheimer) e iria até a do seu padrinho de batismo e avô Chiquinho (Coronel Souza Franco); passearia pela rua do pai (Leôncio Arouche de Toledo) e do vô Zeca (José Arouche de Toledo). Andaria pela rua da vó Henriqueta (Batalha Arouche). Ela é a professora Maria Leonor Arouche Ornellas. Reconhecida pela memória privilegiada, Doda – apelido de família que a acompanha desde criança – é capaz de, aos 91 anos de idade, enunciar a data do nascimento de cada um dos irmãos, irmãs, cunhadas, cunhados; de cada um dos sobrinhos. E, é claro, dos 4 filhos, suas esposas e maridos, dos 11 netos e 6 bisnetos. Matriculada na Escola Normal Padre Anchieta, em São Paulo, viu Ibrahim Nobre, o “Tribuno de 32”, discursar sobre a mureta na defesa dos ideais da Revolução Constitucionalista. Nos finais de semana voltava a Mogi e acompanhava sua mãe, tias e avós confeccionando fronhas, lençóis e camisolas para equipar o hospital de Deodato Wertheimer. “Mas minha avó Francisca (esposa do Coronel Souza Franco) morreu uma semana após o 9 de julho pelo qual ela tanto se empenhou”. Desde 1969 vive em São Paulo, compartilhando o apartamento do bairro de Moema com o marido Jorge Bueno Ornellas (96 anos de idade) – um casamento de 64 anos.

Quando sua família chegou a Mogi das Cruzes?

É uma história longa, de mais de 200 anos. Do lado materno, no início do século 19 um filho de fazendeiros de Campinas se apaixonou por uma moça de Mogi, pediu que seu pai lhe transferisse recursos para comprar terras por aqui e casou-se. Era Mariano de Souza Franco, pai de José Franco de Camargo, avô de Francisco de Souza Franco, bisavô de minha mãe, Benedita Franco Arouche. Do lado paterno, tem a ver com o costume de família paulistanas terem sítios nas redondezas da Capital e Mogi das Cruzes, a primeira cidade fora de São Paulo no caminho para o Rio, era um dos lugares mais procurados. Principalmente porque as terras aqui eram muito baratas. Com a inauguração da estrada de ferro (1886) meu avô Arouche resolveu mudar-se para Mogi. Deixou então o solar da Rua Rego Freitas, ao lado do Largo do Arouche e passou a ocupar um casarão na Rua 13 de Maio (atual Deodato Wertheimer).

Doda e Jorge – um casamento de 64 anos

Como era a infância em sua geração?

Para as gerações mais jovens eu sei que é difícil entender a infância e juventude da primeira metade do século passado. Nós fomos felizes, pode acreditar. Sem televisão, sem computador, sem celular, nós fomos felizes. Mas era outro momento. Vivíamos, a família de papai e mamãe com 4 filhos homens (José, Mariano, Benedito Leôncio e Francisco) e 5 filhas mulheres (Maria Apparecida, Maria Leonor, Maria Thereza, Maria Cecília e Maria Stela) em um casarão da Rua José Bonifácio, 360, ao lado da Igreja Matriz. O quarteirão pertencia ao meu avô e conforme as filhas iam se casando, novas casas eram construídas para abrigá-las. Logo que se casaram, em 1906 (cerimônia celebrada por Padre João – outra rua), papai e mamãe foram morar em São Paulo, numa casa de propriedade de Yaya Mello Freire que fazia divisa com o Palácio Episcopal, ali na Praça Dom José Gaspar. Eram vizinhos e compadres da própria Yaya, que vivia em um solar da Rua Bráulio Gomes. Meus irmãos contavam-me que brincaram muito nos jardins da residência do arcebispo dom Duarte Leopoldo e Silva e também no quintal da casa do embaixador Macedo Soares, compadre de meus pais e que vivia no espaço hoje ocupado pelo Hotel Eldorado da Avenida São Luís. Por testamento, Macedo Soares legou a casa para a Santa Casa de São Paulo, até hoje proprietária do imóvel.

E porque seus pais voltaram para Mogi das Cruzes?

Em 1910 papai foi designado primeiro tabelião da Comarca de Mogi das Cruzes e eles então se mudaram para a Cidade, já no casarão da José Bonifácio que havia acabado de ser construído no espaço onde há hoje um estacionamento. Era uma casa de amplas escadarias e metade do terreno era um quintal, com fundos para a Rua Senador Dantas. Na sala de jantar havia uma mesa com 18 cadeiras; no corredor, as portas dos quartos; o gabinete de leitura dava frente para a Rua José Bonifácio e, nele, mamãe montou o altar de São Benedito (padroeiro dos Arouche) que hoje está na Igreja de São José Operário, no Mogilar. Ao lado da sala de jantar ficava a saleta de tertúlias, que depois virou sala de televisão. Esse era nosso espaço, ampliado pelos quintais dos tios Deodato Wertheimer e Adelino Borges Vieira, nossos vizinhos, assim como vovó Francisca e tia Alice de Souza Franco.

Como era a diversão nesse tempo?

Nós, as filhas mulheres, não podíamos sair sozinhas e então nossas amiguinhas iam brincar conosco em nossa casa. Mamãe também nos impedia de freqüentar escolas públicas; assim éramos alfabetizadas por precursoras ou, então pelas irmãs Vicentinas, que nessa época tinham a única escola particular de Mogi, na esquina das ruas Padre João e Flaviano de Melo. Nos carnavais podíamos participar dos corços e, nas férias, quase sempre íamos para Santos: vovó Francisca acertava tudo – alugava a casa, mandava um caminhão com pertences e nós íamos de automóvel pelo Caminho do Mar. Ou então íamos para Valinhos, lugar que sempre agradou a mamãe. A casa de campo de meus pais ficava no terreno onde depois foi construída a fábrica da Elgin, no São João; imaginem como era Mogi nesse tempo. Passei férias com tia Alice em Aparecida, algo inacreditável para os jovens de hoje. E este era um costume de mogianos: uma vez por ano havia excursões para Aparecida; como era costume o pic nic de 1º de Maio na Gruta de Santa Therezinha ou na Fazenda do Rodeio. Também nos divertíamos nas propriedades rurais da família. Algumas vezes na Fazenda do Preju, em Suzano; outras no sítio do meu tio Zeca Franco na Volta Fria; poucas na Fazenda Capelinha, de meu avô Chiquinho, na Serra do Itapeti. Mesmo depois que todos nos casamos, era comum alugarmos um hotel inteiro, na Praia do Gonzaga, em Santos, para as férias da família toda – pais, irmãos, esposas, maridos e netos. E o Natal era sagrado: até 1964 no casarão da José Bonifácio e, depois disso, a cada ano na casa de um irmão.

Havia distinção entre filhos homens e filhas mulheres?

Na educação severa de minha mãe, havia. Ela permitia quase tudo aos homens. Lembro-me que ela guardava um galão de gasolina para socorrer meus irmãos quando o tanque do automóvel estava vazio. Uma vez eles foram a uma festa em Suzano e, de madrugada, um homem acordou meus pais dizendo que os filhos não podiam voltar porque rapazes de Suzano tinham rasgado o pneu do carro. Meus pais pediram ao homem que voltasse, enchesse o pneu de capim e os acompanhasse no retorno a Mogi. Assim foi feito. Mas essa distinção entre homens e mulheres em nada prejudicava o entendimento familiar. Não me recordo de uma única vez em que meus pais tenham discutido ou tenham batido em um filho. Bastava o olhar de mamãe para entendermos que tínhamos que deixar a sala onde adultos conversavam.

Apesar da rigidez, a senhora foi estudar em São Paulo?

Era outra característica de mamãe: embora descendente de proprietários de terra e ela própria jamais ter freqüentado uma escola (todos seus estudos, incluindo o domínio do francês e do piano foram feitos em casa com professores particulares) ela não admitia que um filho não se formasse. No que era apoiada por papai. Sempre. Meus irmãos homens foram todos internos no Colégio Arquidiocesano e 3 deles se formaram na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde uma sala homenageia seu primeiro diretor – José Arouche de Toledo Rendon. Assim, fui para a Escola Normal Padre Anchieta com 16 anos de idade. Mas papai ia me levar no domingo à noite e me entregava para a Duchinha, amiga da família e com quem morei enquanto estudava em São Paulo. Na sexta-feira seguinte ele ia me buscar para o final de semana em Mogi. Depois do curso Normal ainda pensei em estudar Direito. Mas fui deixando para o ano seguinte e, no fim, passou.

Como foi sua carreira no magistério?

Eu trabalhei durante 35 anos e me aposentei pela Secretaria de Educação do Estado. Lecionei em Biritiba Ussu, na Ponte Grande e na escola isolada da Fazenda do Rodeio. Eu ia de ônibus até a entrada da fazenda em César de Souza e, dali, de charrete até a sala de aula. Em 1956 algo assustou o cavalo – creio que uma cobra –, ele empinou, eu cai e tive uma fratura grave na perna. Fui atendida primeiro na Santa Casa de Mogi e depois, a única ambulância que havia na Cidade, de propriedade da Mineração Geral do Brasil, me levou para o Instituto Paulista, onde fui operada pelo primo Luizinho (Luiz Gustavo Wertheimer, filho de Deodato e primeiro diretor do Departamento de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo). Tive uma convalescença longa e quando retornei ao trabalho, deixei as salas de aula e passei aos setores burocráticos da Secretaria de Educação.

E o casamento, como foi?

Jorge nasceu em Rio Claro (SP) em agosto de 1911. Mas teve a infelicidade de perder a mãe aos 3 anos de idade e foi criado, em Campinas, por uma tia (Maricota, mãe de seus primos Renato e Roberto Corte Real). Seu pai era ferroviário e chefiava a estação da Companhia Paulista em Campinas. Quando se aposentou, veio para Mogi pela paixão por uma moça daqui e foi morar na mesma casa da Rua 13 de Maio (atual Deodato Wertheimer) onde, no final do século 19, moraram meu avô José e minha avó Henriqueta Arouche. Foi ai que nos conhecemos, Jorge trabalhando nos escritórios da Esplanada, como chamávamos o espaço hoje ocupado pelo Mogi Shopping e onde funcionava a administração das obras da Adutora do Rio Claro. Depois ficamos um tempo sem nos ver, ele trabalhando no Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro. Em 1941 nos reencontramos e nos casamos em dezembro de 1943.

Há muitas histórias nessa longa convivência?

Muitas, muitas, muitas. Em 1942, por exemplo, Jorge cismou de tirar brevê, aprender a pilotar aviões. Ele aprendeu com Renato Pedroso no Campo de Marte e foi convidado para uma viagem. Alguma coisa me fez convencê-lo a não ir. Eu temia pelos aviões pequenos da época. Ele não foi, ficou comigo; o pequeno avião desapareceu, nunca foi encontrado. Não tenho pretensão alguma neste particular, mas às vezes penso que me casei com o último gentleman do mundo. Ele é incapaz de uma indelicadeza.

E os filhos?

Sem dúvida essa é a melhor parte de uma história de felicidade completa. Luiz Guilherme (63 anos), engenheiro, tem 3 filhos casados e 5 netos; Francisco José (61), advogado e jornalista que vocês chamam de Chico, tem 2 filhos casados, 1 solteiro e uma neta; Maria Conceição (50), formada em História (PUC-SP), tem 3 filhos e Mônica (41), a caçula, graduada em Administração de Empresas (PUC-SP), 2 filhos. Só quem vive a felicidade de ser mãe pode avaliar a felicidade de ver filhos formados, de família constituída; pode avaliar a felicidade de ver netos formados e, casados, serem pais.

Porque a senhora se mudou para São Paulo?

Mais uma vez movida pelos filhos. O Luiz Guilherme estava na Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie e já morava em São Paulo; as meninas eram pequenas e o Francisco José, apaixonado por Mogi das Cruzes, estava na Faculdade de Direito da Universidade Braz Cubas, trabalhava no Diário de Mogi e envolvia-se com política estudantil. Eu e o Jorge achamos que, se esse fosse o desejo dele, poderia continuar para sempre em Mogi. Mas ele precisava conhecer novos ares. E a única maneira de forçá-lo a isso seria mudarmos para São Paulo. Por algum tempo ele ainda morou com minha tia Alice, em Mogi. Mas seis meses depois, em janeiro de 1970, já estava contratado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Deu certo.

O que a senhora faz para se distrair?

Durante muitos anos me distraí fazendo tricô e enquanto mamãe era viva, havia as sessões de pif-paf em sua casa. Também as sessões de teatro e cinema e a leitura permanente. Mas hoje São Paulo não é uma cidade que privilegie as pessoas de idade. Então me distraio vendo televisão, assistindo a filmes alugados, lendo diariamente O Estado de S. Paulo e, há anos, sentindo falta do Diário de Mogi que não recebo mais. Jorge e eu conversamos muito. E esperamos que um filho ou um neto telefone convidando para um passeio ou um restaurante – o que eles fazem com freqüência.

Publicado em 2008

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