Mogi de A a Z

Tempos difíceis

19 de fevereiro de 2021

Era fevereiro de 1966. Faz 55 anos

O governador Adhemar de Barros discursa em comício no Largo do Rosário. À sua direita, Carlos Alberto Lopes; à esquerda, Waldemar Costa Filho

BRASIL vivia o início de um de seus períodos mais difíceis após o golpe de março de 1964, que instituiu o regime militar. Duraria até 1985.

MOGI começava a viver uma das mais acirradas disputas políticas de sua história, com precedente apenas na década de 1930, quando da instituição do Estado Novo de Getúlio Vargas.

CARLOS ALBERTO LOPES tinha 78 anos e exercia, pela terceira vez, o cargo de prefeito. Cidadão português naturalizado brasileiro, era empreiteiro e construíra obras de impacto em Mogi: os cines Urupema e Avenida, a velha Estação Rodoviária, a sede original do Clube de Campo, o prédio do Ginásio do Estado (Rua Coronel Souza Franco) e dezenas de casas.

WALDEMAR COSTA FILHO tinha 43 anos e exercia seu primeiro cargo eletivo, como vice-prefeito. Chegara a Mogi há 24 anos para trabalhar na Mineração Geral do Brasil. A essa altura tocava a Sometra, transportadora e revendedora das marcas FNM e Alfa Romeo. A empresa ocupava o prédio da esquina da Avenida Pinheiro Franco com a Rua Ipiranga.

A aliança entre Carlos Alberto Lopes e Waldemar Costa Filho para as eleições de 1963, quando ainda não vigoravam chapas unificadas para prefeito e vice, foi possível graças ao aval do então governador Adhemar de Barros, que autorizou o Banco do Estado de São Paulo, sob tutela governamental, a liberar empréstimo para a Sometra.

Eleitos, assumiram com aparente calmaria. Durou pouco: enquanto Carlos Alberto Lopes tocava a burocracia a partir do casarão da Rua José Bonifácio (onde hoje há um estacionamento), que ele próprio construíra, por encomenda do médico Deodato Wertheimer (a casa foi desapropriada na década de 1930 para abrigar a Prefeitura), Waldemar dava expediente no gabinete de vice-prefeito, instalado em prédio da Rua Barão de Jaceguai, hoje ocupado por hotéis de baixa categoria.

Na Câmara Municipal, onde está o Teatro Vasques, havia 19 vereadores: Dirceu do Valle, Hideo Nakayama, Ivan Nunes Siqueira, Jacob Cardoso Lopes, João Affonso Netto, José Marcos Gonçalves, José Pinheiro Franco, José Silveira, Jurandir de Oliveira, Maurício Nagib Najar, Milton Rabelo dos Santos, Minor Harada, Nesclar Faria Guimarães, Nicolau Lopes de Almeida, Otávio Rodrigues de Mathias, Plácido Campolino, Roberto Ornelas, Silvio da Silva Pires e Waldemar Campos Cortez.

Em pouco tempo a cidade desconfiou que a aliança não daria certo e os protagonistas cuidaram de prová-lo. Carlos Alberto Lopes era um político da velha estirpe. Calmo, conhecido em Mogi pela lhaneza no trato, tinha consciência da liturgia do cargo. Era a terceira vez que o exercia e, nas duas anteriores, enfrentara problemas. Em 1930 foi destituído em favor do interventor Eduardo Lejeune e, em 1952, perdeu, depois de assumir, disputa judicial com o irmão Francisco Ferreira Lopes. Os dois haviam se candidatado e, na Justiça, discutiram a validade ou não dos votos apurados no Leprosário de Santo Ângelo.

Logo após a eleição, jantar no restaurante Antártica para celebrar, presentes: Carlos Alberto Lopes (segunda da esquerda para direita); juiz de Direito Fausto Machado Alvim (terno claro) e Waldemar Costa Filho (primeiro da direita para esquerda)

Os problemas entre Carlos Alberto e Waldemar começaram alguns meses depois da posse. O vice-prefeito, proativo e com a energia da juventude, passou a exercer rígida fiscalização sobre áreas da Prefeitura. Para o que não lhe faltavam denúncias de funcionários. Waldemar dava ouvido a boa parte delas. Então o prefeito resolveu dar um basta e alijou o vice, que não se aquietou. Acusado de sublevação, nos tempos difíceis do regime militar, Waldemar foi chamado à Delegacia de Polícia. Compareceu dirigindo seu Volkswagen sedan. Quando ouviu que seria levado ao navio Raul Soares, fundeado na ilha de Santo Amaro, em frente ao porto de Santos, aproveitou-se de uma distração dos policiais, entrou no carro e disparou em direção ao sítio de um amigo na zona rural da cidade. Só saiu de lá quando as coisas se aclararam e ele teve a garantia da liberdade. O navio Raul Soares fora construído em 1900, vendido ao Lloyd Brasileiro em 1925 e fez muitas travessias Brasil-Europa até ser desativado. Os militares o rebocaram do Rio de Janeiro para Santos e o encalharam na ilha de Santo Amaro, para transformá-lo em prisão política.

Estava desenhado o cenário. Em pouco tempo Waldemar Costa Filho começou sua investida, atacando basicamente em dois fronts: a Justiça comum e o temido Serviço Nacional de Informação. Ainda em 1966 enviou denúncia ao SNI, elencando o que acreditava ser irregularidades na Prefeitura. Entre estas a movimentação de funcionários municipais, a cooptação com 15 dos 19 vereadores, a demissão do subprefeito de Jundiapeba (demitido por acusar o grupo político do prefeito de tentar corrompê-lo, com um cheque no valor atualizado de R$ 3,4 mil), auxílio financeiro concedido ao União FC (R$ 69 mil em valores atualizados). Na mesma época, encaminhou denúncia semelhante à Justiça local.

A reconstituição do processo é possível em pesquisa nos guardados do Arquivo Nacional, que preserva grande parte dos documentos coletados pelos serviços de informação do regime militar. Há, no arquivo, relatório prestado por um 2º tenente que atuava na Delegacia do Serviço Militar de Jacareí em atenção ao pedido de investigação de diligências feito pela 2ª Região Militar. Nele, o tenente elenca o que considera provas de corrupção: movimentação no quadro de funcionários municipais, vida pregressa de auxiliares (nenhuma condenação) e avança em avaliação psiquiátrica, ao afirmar que o prefeito, “com 79 anos de idade, em estado de quase senilidade”. O documento tem o carimbo de “secreto”.

O quadro local seguiria nessa toada, com pouca intervenção do poder central pelos dois anos seguintes. Até que adviriam as eleições do final de 1968 em que, finalmente, Waldemar Costa Filho (tendo por vice o advogado José Limongi Sobrinho) se elegeria prefeito.

Sua posse, em 1969, ocorreu pouco depois do Ato Institucional nº 5 (13 de dezembro de 1968), que fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos e direitos políticos e limitou liberdades individuais. Após sua edição, os serviços de repressão do regime militar tiveram seus tempos mais sombrios.

Waldemar Costa Filho assumiu disposto a fazer valer sua autoridade e aniquilar o grupo político que o antecedeu. De imediato, demitiu 231 funcionários e designou pessoas de sua confiança para investigar irregularidades praticadas pelo governo anterior. Dentre estas, duas se destacavam: as obras de reforma da Fonte Luminosa, no Largo do Rosário, e o fornecimento de produtos químicos ao Serviço Municipal de Água e Esgoto.

No caso da Fonte Luminosa, reformada por R$ 1 milhão em valor atualizado, os integrantes da comissão de investigação (Jamil Hallage, Paulo Esteves e Celso Moreira Leite) sugeriram o não pagamento da parcela de 50% e a instauração de processo administrativo para apuração de responsabilidade. Waldemar a demoliu em seguida.

O resultado das apurações quanto ao Semae foram apresentados em 17 de março de 1969, 45 dias depois de constituída, pela comissão integrada por Sérgio Knippel, Hugo de Almeida Castro, Alfredo Campolino dos Santos Filho e René Marques (Américo Kimura, indicado para a comissão, não subscreveu o relatório). Eles fazem uma detalhada demonstração do fluxo de caixa da autarquia e apontam procedimentos fora do padrão.

Ainda em fevereiro de 1969, o novo prefeito encaminhou relatório ao coronel Luiz Maciel Junior, chefe da Comissão de Investigação Sumária da Aeronáutica, em São Paulo, repicando denúncias e acrescentando novas, às quais teve acesso após a posse.

Simultaneamente, o novo prefeito dava sequência às suas denúncias aos serviços de informação, valendo-se também do brigadeiro Paulo Victor da Silva, que atuava da Comissão Geral de Investigações em São Paulo e com quem tinha contatos frequentes.

A enxurrada de denúncias se dava também em outras esferas. Havia investigações sumárias no âmbito da Prefeitura, na polícia e na Justiça comum. Em março de 1969, o prefeito denunciou funcionário à polícia por “crime de usura”: era suspeito de praticar agiotagem. Nesse mesmo mês, outra comissão de investigação foi criada para apurar gastos com o carnaval de 1968 e o Natal de 1967. O curioso é que o relatório referente ao Natal, explicita gastos de 1966 (não de 1967, como disposto originalmente).

Parecia foco único: uma investida contra o empresário Benedito Ferreira Lopes, da família inimiga, lamentava que ele havia obtido, na Justiça, autorização para instalar um posto de gasolina na esquina das ruas Deodato Wertheimer e Ricardo Vilela. O posto está lá até hoje.

Ao final de tudo, ninguém jamais foi condenado. Nem mesmo por proposta do general João Baptista de Figueiredo, do Conselho de Segurança Nacional, que sugeriu a suspensão dos direitos políticos de Carlos Alberto Lopes com base no AI-5.

CARLOS ALBERTO LOPES morreu em 1977. Tinha 89 anos e viveu, até o fim, na chácara que construíra na Rua Afonso Pena, com pomar, piscina, lago e uma simpática casa de bonecas que fizera para sua filha Nancy.

WALDEMAR COSTA FILHO morreu em 2001. Tinha 78 anos e vivia no prédio da Praça Francisca Cardoso de Mello Freire, ao lado do Clube de Campo. Havia encerrado seu quarto mandato eletivo como prefeito

Fonte:

O termo “Mogi das Cruzes” consta em 67 páginas do Arquivo Nacional, no endereço web: https://sian.an.gov.br/sianex/consulta/pagina_inicial.asp

(Fevereiro de 2021)

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