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Uriel Gaspar dos Santos Pereira

4 de novembro de 2021

EMPREENDEDOR – Uriel Gaspar, primeiro à direita, ao lado de Joaquim de Mello Freire (capitão Quinzinho) em ato que marcou sua Empresa de Águas e Esgotos de Mogi. O primeiro à esquerda é Francisco de Souza Franco (Coronel Souza Franco), ao lado de Gabriel Pereira. (foto datada de 15-11-1910 e preservada por Francisco Witzel).

Nem procure, será perda de tempo. Mas, com esforço, dá para reconstituir boa parte da trajetória do mogiano que, fora daqui, mais empreendeu na primeira metade do século passado. Seu nome: Uriel Gaspar dos Santos Pereira. Por convergências do destino, herdeiro de uma viúva rica que, além do patrimônio do primeiro marido, também tinha os bens de uma polpuda herança paterna. Sua mãe era Henriqueta Batalha. Seu avô, João Quirino Machado, capitalista em Santos. E o pai, Uriel dos Santos Gaspar, detentor de terras que mais se assemelhavam a uma sesmaria. A tudo isso agregou o dote da esposa, neta do rico Antonio Mendes da Costa.

Viúva, Henriqueta levou para o segundo casamento três filhos do primeiro: Joaquim, Uriel e Ester. Ester morreu solteira ao redor dos 20 anos (em 28 de janeiro de 1904). Joaquim, o mais velho, fixou-se desde jovem em São Paulo e, em Mogi, ficou mesmo Uriel, em harmonia com os 10 irmãos, por parte de mãe, que Henriqueta – e Zeca, o padrasto – lhe deram. Moravam na atual Rua Dr. Deodato Wertheimer (então 13 de Maio), quase esquina com a Rua Senador Dantas.

Nosso personagem só se emanciparia, em definitivo, às vésperas de completar 20 anos, quando ingressou, em 1894, na Escola Politécnica. Foi-lhe um período decisivo, em meio à ebulição política do início da República; proclamada em 1889. No caso dele, aquela expansão de horizontes empresariais, incentivada pelo novo regime, caiu-lhe aos braços. Tinha capital próprio, relacionamento com a elite intelectual e formação adequada à convivência com o novo status quo.

Uma de suas maiores influência na Escola Politécnica foi do arquiteto francês Victor Dubugras, criado em Buenos Aires e atuante no escritório do italiano Francesco Tamburini1, um dos autores do projeto do Teatro Colon. Quando Tamburini1morreu, Dubugras mudou-se para São Paulo e passou a integrar a equipe do arquiteto Ramos de Azevedo. E a dar aulas na Escola Politécnica.

Graduado em Engenharia Mecânica, Uriel Gaspar iniciou a vida profissional em contratos com a Superintendência de Obras Públicas. A primeira encomenda veio em 1900, para reparar uma ponte sobre o Ribeirão do Espraiado, no município de Cerqueira César. Seguiram-se outras: reforma na Cadeia Pública de Porto Feliz (1900) e da Estrada da Ponte Grande (1902). Foi também em 1902 que ele obteve um dos seus maiores contratos, para a construção da estrada entre Atibaia e Santo Antonio da Cachoeira.

Em 1908 deu início ao seu primeiro grande empreendimento: era a ocupação das terras conhecidas como Pirambeiras. Terras que iam de Mogi das Cruzes a Santos, abarcando territórios dos atuais municípios de Biritiba Mirim e Bertioga. Para isso, pediu autorização ao governo para fazer uma derivação do Rio Tietê alguns quilômetros após a nascente em Salesópolis. Este projeto acabou superado por uma irrecusável proposta da Light, que pretendia explorar a capacidade hidrelétrica das cachoeiras do Rio Itapanhaú, localizadas no centro de Pirambeiras.

Uriel Gaspar dos Santos Pereira até fez negócio com os canadenses da Light, mas acabou no meio de um imbróglio entre eles e os controladores da Gaffrée & Guinle, concessionários do Porto de Santos, que reivindicavam as quedas d’água como imprescindíveis para a geração de energia ao porto. O mogiano deixou lá que eles se entendessem e iniciou nova empreitada, desta feita para colonizar amplas áreas devolutas nos municípios de Santa Cruz do Rio Pardo e Campos Novos do Paranapanema (1909).

A esse tempo empreendia por aqui, criando a Empresa de Águas e Esgotos de Mogi das Cruzes, cuja primeira rede foi inaugurada no dia 8 de janeiro de 1911. Este negócio seria, também, o responsável por seu distanciamento da Cidade. Durou pouco. Em 1919 as ações da empresa foram adquiridas pela Câmara e o serviço municipalizado. Estabeleceu-se aí uma polemica entre Uriel Gaspar e o deputado Rodrigues Alves Sobrinho, aliado de Gabriel Pereira, prefeito à época.

A demanda, girando em torno do novo controle acionário e honorários de advogados, chegou ao Tribunal de Justiça e provocou a troca de “seções livres” na imprensa da Capital. Uriel Gaspar foi-se de Mogi. Encomendou ao amigo Victor Dubugras o projeto de sua nova casa em São Paulo. Nesse mesma época, Dubugras concluía as obras do Colégio Des Oiseaux na Rua Caio Prado e da residência de Horácio Sabino, na Avenida Paulista. A casa de Sabino ocupava todo o quarteirão na esquina da avenida com as ruas Augusta, Padre João Manoel e Alameda Santos; terreno onde seria construído, a partir de 1950, o atual Conjunto Nacional. A de Uriel era quase vizinha, na Rua Padre João Manoel.

Longe de Mogi, Uriel Gaspar iria empreender para os lados de São José dos Campos. Em 1922, obteve a concessão da antiga Colônia Paraíso, que pertencera, até a Primeira Guerra Mundial, aos alemães da Companhia Exploradora de Materiais. A Prefeitura de São José queria desenvolver a região e a deu, para uso perpetuo, ao empresário mogiano. Hoje, nessa incrível gleba de 400 alqueires e 9,68 milhões de m2 há 34 bairros, 100 mil habitantes e 30 mil prédios. Inclui bairros como o Parque Industrial, Jardim Anhembi, Morumbi, Vale do Sol, Residencial Gazzo, Bosque dos Ipês e Jardim Oriente A título de comparação: a antiga Chácara da Yayá em Mogi, onde estão as universidades, prédios públicos e estabelecimentos comercial, tem 36 alqueires e 870 mil m2.

Seu irmão Joaquim seguiu sempre em São Paulo e obteve, do governo, concessão do ajardinamento, por 50 anos, de todos os largos e praças da Capital. Deveria seguir o sistema inglês, que se tornou moda urbanística no final do século 19 com as “cidades jardins”.

Uriel Gaspar dos Santos Pereira morreu dia 8 de novembro de 1932. Era casado com d. Leonor Bastos dos Santos Pereira e deixou três filhos: Plauto, Alcir e Ester. Está sepultado no Cemitério da Consolação.

(Publicado originalmente em 2013)

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